1º dia de Férias
(fotografia de Jo, 2006)Habituada ao reboliço que Agosto traz ao coração das gentes que se afunilam em multidão para reivindicarem o seu raio de sol, dou comigo à procura da palavra que não encontro e que não chega a tempo para descrever tudo o que está à minha volta e , afortunadamente, ao meu alcance.
O mar como pano de fundo...sempre o mar; agora visto de terra, da beira-mar. Atrás ergue-se a montanha verdejante. A estrada mal se vê por entre a sombra do chilrear dos pássaros e passarídeos. Em cima as nuvens.Tento adivinhar o que escondem e olho para ver se vão chorar. Gosto do choro das nuvens das ilhas porque não têm medo de nós as vermos lacrimejar. As gotas de água que vertem são a forma de se libertarem, de expressarem o que lhes vai na alma. São sábias: sabem que o sol volta sempre a brilhar e, regra geral, não demora muito. Quando assim é deixam a alegria entrar e sorriem, soltam uma pincelada de sete cores, uma energia que chega a queimar.
Olho de novo em volta. Agora para mais perto. Está mais gente aqui. Somos uma dúzia, talvez, mas não os oiço, embora os veja falar. Não os conheço, fizemos caminhos diferentes para chegar aqui. Provavelmente alguns vieram de lugares longínquos desse mundo fora. Alguns trouxeram os filhos, outros quiçá os sobrinhos, há os que vêm namoriscar e também estou cá eu, que vim só. Juntos ouvimos o que as ondas nos tentam dizer. Juntos contemplamos a simplicidade do lugar: É a borboleta amarela balouçando-se por entre as plantas cobertas de pelos brancos para que o sal não lhes roube a réstima de água que têm para viver. É o gaiato com um pauzinho, ao qual está atada uma linha, um anzol e uma tampa azul como boía, pronto a pescar. São os caranguejos gordos, como ouvi murmurar, num passo que para eles é acelerado. É o chapinhar das barbatanas, daqueles que olham os peixinhos, que não vejo mas imagino.
É pois no meio de tamanha serenidade que o telefone toca- está na hora de voltar, penso.Consulto mais uma vez as horas e apercebo-me que ainda dá para saudar dois amigos da universidade, outrora colegas das aventuras e desaventuras do núcleo, hoje marinheiros. Somos três gerações distintas mas todos da célebre remessa dos anos par. Eles trabalham com turistas, eu com pescadores, mas todos somos pagos para ver baleias e golfinhos - "atoninhas" como lhe chamam as gentes da Madeira.
O tempo passa depressa, tento a boleia. As boleias aqui são oportunidades que a sorte dá para conhecer pessoas fantásticas, que falam de vidas e sonhos, que mostram os mais bonitos lugares. Já me infiltrei numa excursão sueca, até já de tractor andei. Pára uma senhora:
-Bom dia, por acaso não vai para a Madalena?
- Por acaso vou, mas tenho de parar primeiro em S. Roque.
Seguimos viagem. Confirmo um pensamento antigo: aqui sabem viver! O banho de mar é sagrado para encerrar mais um dia de trabalho e de vez em quando, quando não há o que fazer, vai-se acampar, não se gasta dinheiro e descansa-se.
Chego ao cais: o Carlos vai-se embora, o Franklin já me espera. Vai-me mostrar o pocinho. Almoçámos, vestimoso fato de banho, agarrámos a máquina fotográfica e fomos.
Caminho remoto, pouco procurado, no entanto património mundial de inigualável beleza carregado de vinhas que contrastam com o preto quase despovoado da lava que noutros tempos solidificou. Errantes no nosso percurso, avistámos um senhor, o senhor Augusto, avô de alguém, como viémos depois a saber, ao qual pedimos um pouco de água. Com um toque de humildade e simpatia, que emanava do seu olhar, mostrou-nos a sua adega e nós, de bolo numa mão e angelica na outra, sorrimos, completamente rendidos.
O dia chegara ao fim.

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