quarta-feira, setembro 20, 2006

O Fado de Confiança

Faz muito, muito tempo, num lugar perdido do mundo, lá bem atrás das últimas montanhas que o Homem poderá algum dia avistar, existiu uma formiga cor-de-rosa. Chamava-se Confiança. Rosa eram os seus olhos , rosa era o seu corpo trisegmentado, rosa eram as suas seis patas toráxicas. Enfim tudo era rosa, excepto as suas antenas que eram verdes.
Confiança era bem mais pequena que todas as suas companheiras, de tal modo, que quando andava na labuta diária, desaparecia sob o dorso pesado e carrancudo da sua presa. Não se importava. A bem dizer, ela até gostava que a sua casta não desse pela sua falta pois, assim, ficava livre para observar todas aquelas marchas alinhadas; as correrias incansáveis das obreiras; o galantismo dos machos em torno de sua majestade; o render de guarda das fêmeas estéreis que assim ficaram, segundo ouviu dizer, por terem desobedecido publicamente à rainha. Também gostava de ir para o berçário, ver as larvas e pupas pois contrariamente ao que as outras formigas pensavam e à falta de paciência que advia daí, estas criaturas infantis eram bonitas porque representavam o futuro. Confiança, que de cabeça não era mais velha que elas, brincava e atribuia-lhes nomes para jogarem ao quem é quem, mas verdade seja dita, não havia pequenino que não soubesse quem era a "Esperança", quem era a "Destruição" quem era o "Dinheiro", quem era a "Paz", o "Ódio" ou o "Amor", tudo nomes que a bela formiga rosa inventava. Por vezes, dava-se conta de pensar se todas sobreviveriam até chegarem a fase adulta. A resposta chegava-lhe como um relâmpago: Sobreviveriam aquelas que as obreiras melhor alimentassem e que conseguissem, por mérito próprio, ultrapassar de forma positiva todas as metamorfoses.
Outras vezes que conseguia propositadamente esquivar-se do trabalho, Confiança saía do formigueiro por uma passagem secreta que escavara à noite durante a temporada anterior. Aí longe das outras formigas sentava-se e lia. Uma vez lera que existiriam cerca de 11000 espécies de formigas espalhadas por todo o mundo. Se fosse uma formiga como as outras, provavelmente sentiria que deveria procurar estas formigas, socializar, entregar-se e cair nas teias da eusocialidade.Todavia, ela era diferente. Para ela só fazia sentido dar-se a conhecer a um número reduzido de formigas, a entrega teria que ser indubitavelmente total pois só assim se poderia sentir a verdadeira Confiança.
Um belo dia, em que curiosamente se encontrava a trabalhar, Confiança foi chamada ao palácio real. A rainha mandou sair toda a gente, ficando as duas frente a frente nos aposentos reais. Confiança nunca tinha estado ali e inquietava-se por não saber o que estava ali a fazer. Não era muito dada a gente com poder e normalmente desatinava sempre. Sua soberania falou:
- Sabes Confiança, embora ninguém te dê o valor que mereces e muitas vezes passas despercebida, acredito por seres um pouco omnipresente no formigueiro, reconheço que és especial e muito importante. Deste modo, quero que, a partir de hoje, sejas a minha pata-direita. Deverás guardar segredos, usarás uma linguagem informal e chamar-me-às à atenção quando estiver a fazer algo que me comprometa. Saberás mais que qualquer outro sobre mim e acreditarás veementemente que não te farei mal .
Confiança, no primeiro minuto anuiu. Afinal era fácil porque ela conseguia ser quase tudo o que a rainha exigia, sem ter que fazer nenhum esforço, bastava apenas ser ela própria. Passado cinco minutos, movida pelo seu feitio orgulhoso, rejeitou o cargo: "Quem me quer tem que me conquistar! À força jamais alguém terá confiança", pensou. A rainha pareceu ficar um pouco nervosa e Confiança saíu para a sua caverna, convencida que tinha seguido a melhor opção.
Nesse mesmo dia, à noite, Confiança foi esfaqueada e encontrada morta, a mando de sua majestade.
Nada voltou a ser como era. Embora não reparassem nela, todos sabiam que havia uma formiga mais pequena que as outras e que ainda para mais, era cor-de- rosa. Por uma atitude não pensada e num gesto talvez não calculado, a rainha e toda a comunidade ficaram sem Confiança e lamentavelmente acabaram todos por se sentir mais sós.
Os anos passaram, outras formigas morreram, outras migraram para longe e recomeçaram as suas vidas. Esqueceram-se do nome e rumo da terra, mas ninguém conseguiu apagar a lembrança que um dia partilharam a vida com Confiança e nessa altura foram mais felizes.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

olà joana daki M Leite-- ñ tive tempo de ler isto com calma de qq modo acho q vo gostar e tornar a minha visita mais habitual. Como não sabia postar noutro sitio foi mm aki. té à próxima ..(espero q já possa contriuir com uma opinião realacionada co conteúdo!)

17:46  
Blogger jo said...

Leite, obrigada pela tua visita e volta sempre. De preferência com a tua escrita que é grandiosa e inspiradora

19:08  

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