Memórias de uma cama
Recebeu a ordem de despejo. Tinham já arranjado a sua substituta e Gertudes Gervásia não tinha outro remédio que não aguentar-se à chuva e ao frio, junto de um imundo contentor verde. Se tivessem lareira, e fosse de madeira em vez de ferro, poderia ter outro destino. Talvez fosse cortada em mil pedaços, jogada para a lareira, deixando que o fogo trepidante queimasse lentamente tudo o que dela restava. Não que essa sorte fosse menos penosa, mas pelo menos teria uma morte digna, visto que seria util até ao seu último minuto. Seria, assim, o seu fim apenas uma continuidade do que foi enquanto viva. Seria a forma menos dolorosa de encarar tamanha fatalidade.
É erróneo acreditar numa ingenuidade tão clara e pura que a ofuscasse, inibindo em si todas as sinapses e sinais geradoras de ideias, e desta em concreto. Todavia não estava à espera. Nunca se está e por isso não era fácil. Nunca é. Vivera julgando ser imortal, crente que, assim como as memórias que guardara em segredo, também ela iria perpetuar a memória de alguém, desses"alguém" que com ela partilharam momentos.
Esperança à parte, percebeu quando menos acreditava, que os momentos só têm valor no próprio tempo em que se enquadram. Se se extendessem para além disso, deixariam de ser momentos e perder-se-iam na globalidade da apraz vida, como qualquer tijolo que deixa de ter valor individual quando é usado para construir uma parede; como qualquer parede que o deixa de ser quando passa a fazer parte de uma casa.
Não esperava reconhecimento ou devoção. Nunca o tinha tido durante anos, não seria agora!Não se considerava um génio para poder receber esse tipo de aclamação pós mortis, que só as grandes personalidades têm. Não iriam colocar uma imagem sua numa moldura como faziam com Dali, Da Vinci ou Picasso. Não iria ser citada nos livros como Newton, Camões ou Joana d'Arc. Não iria ser entoada e interpretada freneticamente como as sinfonias de Beethoven, Mozart ou Ravel. Não passava de uma antiquíssima cama de ferro que hoje deixara de servir. Como tal, sumiria sorrateiramente nas entranhas da terra como tantos milhões de anónimos.
Seria esquecida e com o tempo até o mais infímo regista da sua existência, da sua passagem, apagar-se-ia.
Com ela desapareceriam, também, as lembranças do soldador que dias a fio a moldou e fundiu, de quase um ano que passou numa vitrine, ansiando ser ela a escolhida por quem ali passava. Estava farta daquele ambiente frio e impessoal! Queria sentir o calor de um lar, o barulho dos passos, portas e janelas a abrir, conquanto fossem sempre as outras camas as preferidas...Ela, mais uma vez, ficava para lá, sonhando com o dia em que a viriam buscar. Sonhava acordada, sonhava em silêncio...Como se os sonhos fossem a única cortina entre ela e a realidade.
Quando já tinha deixado de imaginar, o tão esperado dia, aconteceu. Lembra-se como se tivesse sido agora:Era um casal enamorado, muito tenros ainda, ambos de estatura mediana, facetas rosadas. A mulher vestia uma saia rodada que chegava quase ao tornozelo e um lenço na cabeça. Por seu lado, o homem trazia uma boina na cabeça e umas calças de fazenda. A acompanhá-los estavam outros dois casais, que como veio a saber à posterior, eram os respectivos progenitores da dupla. A indumentária destes era em tudo semelhante. Foram os homens que falaram e fecharam o negócio.
Depois de uma viagem que lhe pareceu interminável, Gertudes Gervásia lá chegou aquela que iria ser a sua primeira casa. Num quarto de um verde muito escuro, fazia-lhe companhia uma cómoda e duas mesas de cabeceira sob as quais havia um imaculado napron. Em cima, sobressaia uma jarra de porcelana com bonitas flores de lavanda, cujo cheiro se propagava como onda pelo quarto, acabando por se entranhar na colcha de crochet branca que cobria a própria Gervásia. O casal, esse, só veio mais tarde, quando celebrou o matrimónio. Gertudes Gervásia sentia um certo dó e solidariedade pela mulher, tendo acabado por ser a sua mais fiel cúmplice. Lembra-se ainda da primeira vez que os dois jovens lá dormiram. Ele agarrou-lhe as mãos, desviou-lhe as cuecas, montou-a, penetrou-a até ela sangrar e largou-a para cair num sono cansado e profundo. Dormiu como pregador que converte os infieis, a sua missão havia sido cumprida. Jogada à força, a mulher permaneceu todo o tempo atónita e imóvel. Pensava no seu verdadeiro amor, o seu principe encantado com o qual se vira impossibilitada de casar por este descender de uma familia sem riquezas. O seu marido, para ela, mais não era que uma abelha a roubar o mel antes do florescimento...
Gertudes Gervásia perdeu a conta às vezes que viu, sem poder fazer nada, a mulher a desfalecer com as sovas que levava quando o marido chegava a casa bebâdo que nem um cacho, mas em compensação, orgulha-se de ter visto nascer os dez fedelhos, muito antes que qualquer outra pessoa. Os tempos eram outros
É erróneo acreditar numa ingenuidade tão clara e pura que a ofuscasse, inibindo em si todas as sinapses e sinais geradoras de ideias, e desta em concreto. Todavia não estava à espera. Nunca se está e por isso não era fácil. Nunca é. Vivera julgando ser imortal, crente que, assim como as memórias que guardara em segredo, também ela iria perpetuar a memória de alguém, desses"alguém" que com ela partilharam momentos.
Esperança à parte, percebeu quando menos acreditava, que os momentos só têm valor no próprio tempo em que se enquadram. Se se extendessem para além disso, deixariam de ser momentos e perder-se-iam na globalidade da apraz vida, como qualquer tijolo que deixa de ter valor individual quando é usado para construir uma parede; como qualquer parede que o deixa de ser quando passa a fazer parte de uma casa.
Não esperava reconhecimento ou devoção. Nunca o tinha tido durante anos, não seria agora!Não se considerava um génio para poder receber esse tipo de aclamação pós mortis, que só as grandes personalidades têm. Não iriam colocar uma imagem sua numa moldura como faziam com Dali, Da Vinci ou Picasso. Não iria ser citada nos livros como Newton, Camões ou Joana d'Arc. Não iria ser entoada e interpretada freneticamente como as sinfonias de Beethoven, Mozart ou Ravel. Não passava de uma antiquíssima cama de ferro que hoje deixara de servir. Como tal, sumiria sorrateiramente nas entranhas da terra como tantos milhões de anónimos.
Seria esquecida e com o tempo até o mais infímo regista da sua existência, da sua passagem, apagar-se-ia.
Com ela desapareceriam, também, as lembranças do soldador que dias a fio a moldou e fundiu, de quase um ano que passou numa vitrine, ansiando ser ela a escolhida por quem ali passava. Estava farta daquele ambiente frio e impessoal! Queria sentir o calor de um lar, o barulho dos passos, portas e janelas a abrir, conquanto fossem sempre as outras camas as preferidas...Ela, mais uma vez, ficava para lá, sonhando com o dia em que a viriam buscar. Sonhava acordada, sonhava em silêncio...Como se os sonhos fossem a única cortina entre ela e a realidade.
Quando já tinha deixado de imaginar, o tão esperado dia, aconteceu. Lembra-se como se tivesse sido agora:Era um casal enamorado, muito tenros ainda, ambos de estatura mediana, facetas rosadas. A mulher vestia uma saia rodada que chegava quase ao tornozelo e um lenço na cabeça. Por seu lado, o homem trazia uma boina na cabeça e umas calças de fazenda. A acompanhá-los estavam outros dois casais, que como veio a saber à posterior, eram os respectivos progenitores da dupla. A indumentária destes era em tudo semelhante. Foram os homens que falaram e fecharam o negócio.
Depois de uma viagem que lhe pareceu interminável, Gertudes Gervásia lá chegou aquela que iria ser a sua primeira casa. Num quarto de um verde muito escuro, fazia-lhe companhia uma cómoda e duas mesas de cabeceira sob as quais havia um imaculado napron. Em cima, sobressaia uma jarra de porcelana com bonitas flores de lavanda, cujo cheiro se propagava como onda pelo quarto, acabando por se entranhar na colcha de crochet branca que cobria a própria Gervásia. O casal, esse, só veio mais tarde, quando celebrou o matrimónio. Gertudes Gervásia sentia um certo dó e solidariedade pela mulher, tendo acabado por ser a sua mais fiel cúmplice. Lembra-se ainda da primeira vez que os dois jovens lá dormiram. Ele agarrou-lhe as mãos, desviou-lhe as cuecas, montou-a, penetrou-a até ela sangrar e largou-a para cair num sono cansado e profundo. Dormiu como pregador que converte os infieis, a sua missão havia sido cumprida. Jogada à força, a mulher permaneceu todo o tempo atónita e imóvel. Pensava no seu verdadeiro amor, o seu principe encantado com o qual se vira impossibilitada de casar por este descender de uma familia sem riquezas. O seu marido, para ela, mais não era que uma abelha a roubar o mel antes do florescimento...
Gertudes Gervásia perdeu a conta às vezes que viu, sem poder fazer nada, a mulher a desfalecer com as sovas que levava quando o marido chegava a casa bebâdo que nem um cacho, mas em compensação, orgulha-se de ter visto nascer os dez fedelhos, muito antes que qualquer outra pessoa. Os tempos eram outros

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